O setor de cervejas artesanais no Brasil encerrou 2023 com números expressivos: mais de 1.800 cervejarias registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), consolidando o país como o terceiro maior produtor de cerveja do mundo e um dos mercados artesanais que mais cresce na América Latina.
Para 2024, as projeções são ainda mais otimistas. Associações do setor estimam que o número de estabelecimentos deva ultrapassar 2.000 unidades ao longo do ano, impulsionado principalmente pela descentralização da produção — estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo concentram a maioria das novas aberturas, mas regiões historicamente menos exploradas, como Nordeste e Norte, começam a ganhar representatividade.
**O que mudou no perfil do consumidor**
A pandemia acelerou uma transformação que já estava em curso: o brasileiro passou a valorizar mais a experiência de consumo do que o preço por litro. Cervejas com identidade regional, ingredientes locais e narrativa de origem ganharam espaço nas prateleiras e nos menus de restaurantes. Isso abriu mercado para cervejarias menores que antes lutavam para competir com as grandes marcas.
Estilos como a IPA americana e sua variante Hazy (NEIPA) seguem dominando as vendas no segmento premium, mas há um movimento crescente em direção às Lagers artesanais — especialmente Pilsners e Munich Helles — que atendem um público que busca cerveja de qualidade sem a intensidade amarga das hoppy ales.
**Desafios do crescimento**
O crescimento acelerado traz consigo desafios estruturais. A escassez de lúpulo nacional obriga a maioria das cervejarias a importar insumos, tornando os custos de produção extremamente sensíveis à variação cambial. O dólar acima de R$5,00 é uma constante preocupação para quem depende de variedades americanas como Citra, Mosaic e Simcoe.
Outro gargalo é a mão de obra qualificada: o número de mestres-cervejeiros formados ainda não acompanha o ritmo de abertura de novos negócios. Cursos técnicos e certificações como a BJCP (Beer Judge Certification Program) têm ganhado procura crescente, mas a formação especializada ainda é escassa fora dos grandes centros.
**O papel das cervejarias ciganas**
Um fenômeno que ganhou força nos últimos dois anos é o modelo de cervejaria cigana (gypsy brewing), onde o empreendedor desenvolve a receita e terceiriza a produção para uma cervejaria com capacidade ociosa. Esse modelo reduz a barreira de entrada — sem a necessidade de investimento em equipamentos — e permite que novos players testem o mercado antes de decidir pela instalação própria.
O setor observa 2024 com cautela e entusiasmo simultâneos. Cautela, porque o mercado começa a dar sinais de maturação e a concorrência acirrada tende a eliminar os players menos preparados. Entusiasmo, porque o consumidor brasileiro nunca esteve tão educado e disposto a pagar por qualidade.