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BJCP Cider 2025: a maior reorganização do guia de sidras em uma década

Saíram três estilos, entraram dez. Spanish Cider, Fire Cider e Ice Perry foram oficializados. O que muda na avaliação e na prateleira.

Redação guia.beer·

O Beer Judge Certification Program publicou em 2025 a maior reformulação das diretrizes de sidra desde a edição de 2015. O documento passou de 9 estilos catalogados para 16, foi reorganizado em quatro categorias funcionais (Traditional, Strong, Specialty e Perry) e ganhou descrições técnicas mais precisas, alinhadas ao guia de cervejas de 2021 e ao guia de hidroméis de 2025.

O que entrou

Dez estilos foram formalizados pela primeira vez ou ganharam categoria própria.

**Spanish Cider** finalmente recebeu seu espaço dedicado. Originária do norte da Espanha (Astúrias, Cantábria e País Basco), produzida com co-fermentação natural de leveduras e bactérias, frequentemente exibe caráter selvagem e leve volatilidade ácida que tradicionalmente é liberada via Escanciar (a serviço com queda alta da garrafa para o copo). Antes era enquadrada de forma genérica.

**Fire Cider** (cidre de feu canadense) entrou como categoria autônoma. Produzida a partir de mosto fervido e concentrado, com fermentação interrompida, tem caráter caramelizado intenso, lembrando xarope de bordo, com versões envelhecidas exibindo notas de jerez. Específica do Quebec, agora com nomenclatura técnica reconhecida.

**Ice Perry** (Poiré de Glace) é o equivalente em pera da Ice Cider. Suco de pera congelado antes da fermentação concentra açúcar, e o produto final tem corpo cheio, doçura equilibrada e finalização aveludada. Estilo regional canadense que conquistou catalogação independente.

**Heirloom Cider** e **Heirloom Perry** ganharam a definição de produto craft que usa variedades antigas e tradicionais sem necessariamente seguir a escola inglesa, francesa ou espanhola. É a janela técnica para a sidra craft norte-americana, britânica oriental e brasileira.

**English Cider** e **French Cider**, antes parte de uma categoria genérica Traditional, ganharam descrições próprias. A inglesa formaliza o caráter fenólico e levemente smoky derivado da fermentação maloláctica intencional. A francesa formaliza a doçura equilibrada e o uso de keeving (défécation) para arrestar fermentação.

**New England Cider**, **Applewine**, **Fruit Cider** e **Spiced Cider** completam o conjunto de estilos novos. Cada um responde a uma realidade comercial estabelecida. New England Cider se diferencia pelo uso de adjuntos como passas e açúcares (chegando a 13 por cento de álcool). Applewine usa açúcar neutro para concentrar álcool até níveis vinosos. Fruit e Spiced Cider organizam o universo das adições não-maçã com regras técnicas claras.

O que saiu

Três estilos do BJCP 2021 desapareceram da nomenclatura: New World Specialty Cider and Perry, Traditional Specialty Cider and Perry e Pommeau. Não é descontinuação real. São absorções. Os produtos nessas categorias agora se enquadram em Fruit Cider, Spiced Cider ou Experimental Cider, conforme o caso. Pommeau, que combina cidre fresco com calvados envelhecido, passou para Experimental Cider por ser tecnicamente uma mistura.

Por que a reorganização importa

A edição 2015 era uma estrutura simples para uma categoria pequena. Em 2025, sidra craft é um mercado bilionário com diversidade de processos, fontes de fruta e tradições regionais que merecem catalogação técnica. O guia de 2025 reflete essa maturidade.

Para juízes em concursos, a mudança traz ganho de precisão. Spanish Cider antes competia em categorias inadequadas. Fire Cider e Ice Perry tinham descrições parciais misturadas com Ice Cider. Agora cada produto disputa contra similares reais.

Para cervejarias e cervejeiros caseiros, é uma mudança de orientação técnica. Quem fazia uma sidra com adições de fruta antes podia usar a categoria Traditional Specialty. Agora deve declarar variedade base, ingredientes adicionados, nível de carbonatação e doçura conforme regras claras de Fruit Cider ou Spiced Cider, com Vital Statistics específicas.

Para o consumidor, é um vocabulário mais rico para entender o que está bebendo. Um rótulo que indica Heirloom Cider hoje significa coisa específica, diferente de Common Cider, e isso ajuda na escolha.

E o Brasil

O Brasil produz pouca sidra industrialmente, mas tem cena craft em crescimento, especialmente na região Sul. A nova categoria de Heirloom Cider abre espaço técnico para versões com variedades de maçã que crescem em altitude no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Algumas cervejarias da região Sudeste vêm experimentando Spiced Cider com gengibre e ervas locais. O guia 2025 oferece linguagem técnica para esses produtores se posicionarem em concursos internacionais.

A categoria Experimental Cider, deliberadamente aberta, acolhe sidras com adições de honey, mistura com cerveja, envelhecimento em barril específico ou estilos regionais ainda não codificados. É a janela onde uma sidra brasileira com personalidade própria pode entrar sem se forçar em categoria importada.

Próximo passo

O guia de hidroméis BJCP 2025 (separado, com 28 estilos) também passou por reformulação. A próxima edição do guia de cervejas, esperada para 2027 ou 2028, deve seguir a mesma lógica de granularidade. Estilos que hoje são informais ou subagrupados (Cold IPA, West Coast IPA versão modernista, NEIPA Imperial) provavelmente ganharão espaço próprio. O movimento BJCP de 2025 com sidras é piloto, e bem sucedido.

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